Em 2005, recebi um diagnóstico e um encaminhamento médico que pareciam uma sentença imediata: eu precisava entrar na fila para um transplante de córnea. Diante daquela recomendação, ao sair do consultório, tomei uma decisão firme. Em vez de ir para a fila, caminhei em direção à porta de saída.

Naquele ano, a cirurgia exigia cerca de 160 pontos na córnea e um pós-operatório rigoroso. Eu era mãe de gêmeos de apenas três anos. Como eu iria pegá-los no colo? Como jogaria futebol, basquete ou simplesmente correria com eles? Além disso, eu era uma profissional extremamente ativa, viajando a trabalho praticamente toda semana. Somado a isso, minha condição (uma distrofia) é recidiva; o transplante não seria a cura definitiva, mas uma solução temporária. Para a minha realidade de então, aquela cirurgia não fazia sentido. Não se justificava.


Recentemente, em 2026, retornei ao mesmo consultório. Após todos esses anos, ele examinou os meus olhos, tirou uma foto da minha córnea e me chamou de "heroína". Ele se impressionou com o fato de que eu nunca me bati, sempre buscando alternativas — desde o procedimento de PTK em 2013 e 2014 até o uso estratégico de colírio para dilatar a pupila a partir de 2022 para conseguir enxergar e continuar trabalhando em frente às telas. Se eu tivesse operado em 2005, hoje provavelmente já teria passado por pelo menos dois transplantes em cada olho.

Minha teimosia — ou meu instinto de mãe e profissional — me trouxe funcional até aqui, em 2026. Mas o tempo passa, e hoje o colírio já não responde como antes. Cheguei ao momento em que as limitações nas atividades diárias se tornaram reais. E, finalmente, a fila do transplante passou a fazer sentido.


O preço de ser "Heroína" e o desenho do mundo

Essa jornada me fez repensar profundamente o que chamamos de deficiência. Por muito tempo, resisti a me ver como PCD. Hoje, entendo que a limitação muitas vezes não está em nós, mas em um mundo que não está preparado para nos acolher.

Quem convive com a baixa visão, como eu, aprende a tatear o mundo de outra forma. Nos lugares que conheço, me movo com total autonomia; nos desconhecidos, preciso de apoio. Mas basta uma fita amarela colada fora do lugar no degrau da academia, ou as calçadas esburacadas da nossa cidade de São Paulo, para percebermos que a infraestrutura urbana nos empurra para a exclusão. Muitas vezes, precisamos ser heróis apenas porque o ambiente ao nosso redor falha em ser minimamente acolhedor.

E ser heroína cansa. Sustentar o ritmo de uma profissional ativa, da mãe que deseja estar inteira para os filhos e da pessoa que busca incansavelmente soluções para a própria autonomia exige uma quantidade de energia psíquica monumental.


O olhar da Psicanálise: Quando a urgência encontra o sentido

Na psicanálise, compreendemos que existe uma diferença crucial entre o tempo do relógio e o tempo do sujeito. Em 2005, o transplante seria uma violência contra a história que eu precisava construir com meus filhos e com a minha carreira. Eu precisava correr, carregar no colo, viajar. A negação da cirurgia, naquele momento, foi uma afirmação da minha vida.

Hoje, entrar na fila não é um ato de derrota ou de fraqueza. É, pelo contrário, o reconhecimento maduro de que os recursos de adaptação chegaram ao limite e que agora existe uma nova justificativa para o cuidado. Aceitar a intervenção médica hoje é um ato de acolhimento com a minha própria história.

Nós vivemos em uma sociedade — especialmente no ritmo acelerado de polos corporativos como a região da Berrini e da Chucri Zaidan — que nos exige performance em tempo integral. Somos ensinados a ignorar os sinais do corpo, a camuflar nossas dores na frente das telas de computador e a continuar correndo a qualquer custo. Construímos verdadeiras armaduras para esconder nossas vulnerabilidades.

Mas a verdade é que não precisamos dar conta de tudo sozinhos o tempo todo. Assim como os olhos às vezes precisam de novas lentes, de procedimentos ou de um transplante, a nossa mente também precisa de um espaço de pausa onde possamos deixar de ser "heróis" por uma hora na semana.


A análise é esse lugar. Um espaço seguro onde você não precisa performar, onde suas limitações podem ser ditas e onde você pode, finalmente, descobrir o seu próprio tempo para tomar as decisões mais importantes da sua vida.

Se você sente que tem sustentado um peso maior do que o seu corpo ou a sua mente podem carregar, permita-se um espaço de escuta. Agende uma sessão de análise.